p é s s a n g a

péssanga (ou péssangas) é um antigo jargão nortenho,
usado pelos adolescentes nos seus jogos e divertimentos;
em qualquer altura da brincadeira,
pedir péssanga(s) significa pedir tréguas, pausa ou descanso.

 

 

2 de Março de 2012

Jornal de Angola

edição online de (hoje) 2 de Março de 2012

E D I T O R I A L

PATRIMÓNIO EM RISCO
"Os ministros da CPLP estiveram reunidos em Lisboa, na nova sede da organização, e em cima da mesa esteve de novo a questão do Acordo Ortográfico que Angola e Moçambique ainda não ratificaram. Peritos dos Estados membros vão continuar a discussão do tema na próxima reunião de Luanda. A Língua Portuguesa é património de todos os povos que a falam e neste ponto estamos todos de acordo. É pertença de angolanos, portugueses, macaenses, goeses ou brasileiros. E nenhum país tem mais direitos ou prerrogativas só porque possui mais falantes ou uma indústria editorial mais pujante.
Uma velha tipografia manual em Goa pode ser tão preciosa para a Língua Portuguesa como a mais importante empresa editorial do Brasil, de Portugal ou de Angola. O importante é que todos respeitem as diferenças e que ninguém ouse impor regras só porque o difícil comércio das palavras assim o exige. Há coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios, por mais respeitáveis que sejam, ou às “leis do mercado”. Os afectos não são transaccionáveis. E a língua que veicula esses afectos, muito menos. Provavelmente foi por ter esta consciência que Fernando Pessoa confessou que a sua pátria era a Língua Portuguesa.
Pedro Paixão Franco, José de Fontes Pereira, Silvério Ferreira e outros intelectuais angolenses da última metade do Século XIX também juraram amor eterno à Língua Portuguesa e trataram-na em conformidade com esse sentimento nos seus textos. Os intelectuais que se seguiram, sobretudo os que lançaram o grito “Vamos Descobrir Angola”, deram-lhe uma roupagem belíssima, um ritmo singular, uma dimensão única. Eles promoveram a cultura angolana como ninguém. E o veículo utilizado foi o português. Queremos continuar esse percurso e desejamos que os outros falantes da Língua Portuguesa respeitem as nossas especificidades. Escrevemos à nossa maneira, falamos com o nosso sotaque, desintegramos as regras à medida das nossas vivências, introduzimos no discurso as palavras que bebemos no leite das nossas Línguas Nacionais. Sabemos que somos falantes de uma língua que tem o Latim como matriz. Mas mesmo na origem existiu a via erudita e a via popular. Do “português tabeliónico” aos nossos dias, milhões de seres humanos moldaram a língua em África, na Ásia, nas Américas. Intelectuais de todas as épocas cuidaram dela com o mesmo desvelo que se tratam as preciosidades.
Queremos a Língua Portuguesa que brota da gramática e da sua matriz latina. Os jornalistas da Imprensa conhecem melhor do que ninguém esta realidade: quem fala, não pensa na gramática nem quer saber de regras ou de matrizes. Quem fala quer ser compreendido. Por isso, quando fazemos uma entrevista, por razões éticas mas também técnicas, somos obrigados a fazer a conversão, o câmbio, da linguagem coloquial para a linguagem jornalística escrita. É certo que muitos se esquecem deste aspecto, mas fazem mal. Numa entrevista até é preciso levar aos destinatários particularidades da linguagem gestual do entrevistado.
Ninguém mais do que os jornalistas gostava que a Língua Portuguesa não tivesse acentos ou consoantes mudas. O nosso trabalho ficava muito facilitado se pudéssemos construir a mensagem informativa com base no português falado ou pronunciado. Mas se alguma vez isso acontecer, estamos a destruir essa preciosidade que herdámos inteira e sem mácula. Nestas coisas não pode haver facilidades e muito menos negócios. E também não podemos demagogicamente descer ao nível dos que não dominam correctamente o português.
Neste aspecto, como em tudo na vida, os que sabem mais têm o dever sagrado de passar a sua sabedoria para os que sabem menos. Nunca descer ao seu nível. Porque é batota! Na verdade nunca estarão a esse nível e vão sempre aproveitar-se social e economicamente por saberem mais. O Prémio Nobel da Literatura, Dário Fo, tem um texto fabuloso sobre este tema e que representou com a sua trupe em fábricas, escolas, ruas e praças. O que ele defende é muito simples: o patrão é patrão porque sabe mais palavras do que o operário!
Os falantes da Língua Portuguesa que sabem menos, têm de ser ajudados a saber mais. E quando souberem o suficiente vão escrever correctamente em português. Falar é outra coisa. O português falado em Angola tem características específicas e varia de província para província. Tem uma beleza única e uma riqueza inestimável para os angolanos mas também para todos os falantes. Tal como o português que é falado no Alentejo, em Salvador da Baía ou em Inhambane tem características únicas. Todos devemos preservar essas diferenças e dá-las a conhecer no espaço da CPLP. A escrita é “contaminada” pela linguagem coloquial, mas as regras gramaticais, não. Se o étimo latino impõe uma grafia, não é aceitável que através de um qualquer acordo ela seja simplesmente ignorada. Nada o justifica. Se queremos que o português seja uma língua de trabalho na ONU, devemos, antes do mais, respeitar a sua matriz e não pô-la a reboque do difícil comércio das palavras."

(o itálico é da minha responsabilidade)


jorge esteves

5 notas a propósito:

Blogger APC disse...

Gostei de ter lido aquela passagem de que se desintegram as regras e se introduz no discurso palavras à medida das nossas vivências. Acho que é essa a cultura, esse o valor e sem dúvida que essa a poesia de uma língua. E por isso cada povo que a usa, fá-lo de forma diferente. E preferia que cada país que a escreve, continuasse a poder escrevê-la assim. Ainda que, dentro das fronteiras, faça sentido haver uma norma, uma referência, no que à escrita diz respeito (à ortografia, à gramática, enfim). Isto, para que exista um padrão que nos permita ensinar e aprender, e até para que, como diz o texto, o jornalismo, a literatura e outras dimensões da palavra escrita possam não ser uma cópia pobre de uma oralidade assaz mutável , para além de cada vez mais pobre.
Quanto ao tema de fundo, já li tanto (e continuarei a ler), já ouvi tanto (e continuarei a ouvir) e já disse tanto (que aqui não vou dizer), mas não haja dúvida que estamos numa fase de grandes dúvidas sobre o futuro desse AO.
O dito acordo exigia a assinatura de todos os países nele envolvidos, até uma determinada data. E há quem argumente que a alteração para a obrigatoriedade de apenas três o assinarem não poderá ser válida porque feita, exactamente, além desse prazo, e por isso à luz de um acordo que já não o poderia ser (tipo pescadinha de rabo na boca). Por acaso é coisa que ainda não tirei a limpo, porque há mais coisas no céu e na terra, mas que não deixarei de investigar.
E que uma das condições para que passasse a vigorar, seria que as novas regras fossem vertidas para dicionário, de modo a que (pelo menos isso) os indivíduos pudessem saber escrever à luz dessas, as escolas pudessem ensinar com rigor, etc. E isso ainda não temos, não.
Esperemos, para ver no que dá, esta alegada tentativa de unificação, que disso nada tem, dadas as incoerências, as contradições, as excepções, as permissividades e as desculpas ranhosas para todas elas.

3 de Março de 2012 00:50  
Blogger APC disse...

(Continuação)


Permitir-se uma dupla grafia dentro do mesmo território, é vergonhoso; cria divergências onde as não havia, opondo-se assim ao papel normativo da ortografia, o que só vem provar que o mal de se escrever diferentemente em Portugal e no Brasil era, em si, um mal bem menor (se algum mal houvesse nisso).
A desagregação gráfica de famílias de palavras é disortográfica por si só, e tudo isto é tão insano que dói. Li num artigo uma coisa muito interessante: que, se a 1ª pessoa do plural do pretérito perfeito do verbo confeccionar pode, ou não, ser acentuada; e que se o "c" da palavra poderá ser mudo (alguns dicionários de pronúncia assim o entendem) ou articulado, então teríamos quatro formas possíveis na nossa língua: confeccionámos, confeccionamos, confecionámos e confecionamos. Vês como “o português” também cresce? Bonito serviço!
Se ao menos tivessem sido consultadas todas as fontes pertinentes do saber Português... E se a coisa tivesse sido feita com tempo e ponderação, com pés e cabeça, com o respeito devido...
E o que é isso da "norma culta" que é suposto ditar as regras? O que é, senão uma via ínvia? E a do "uso consagrado" para justificar o injustificável? E porque é que nuns casos é evocada a origem etimológica das palavras, e noutros ela é chacinada sem dó nem piedade? Porquê?...
E como poderão os professores ensinarem as crianças a escrever, se ninguém os ensina a eles? E como poderão ser ensinados, se ainda há tantas dúvidas sobre a matéria, tanta coisa por dcidir e corrigir?
Não tenho dúvidas de que a primeira coisa que deveríamos corrigir seria a existência desse tratado intratável. E a cada vez que me dedico a explicar, a quem mo pede, quais as alterações e os seus porquês, nesses porquês me perco, e bem gostaria de saber se existirá alguém capaz de os explicar sem dúvidas. Duvido!...

3 de Março de 2012 00:50  
Blogger mfc disse...

Acho que é uma violência, pelo menos para mim, reaprender uma escrita que sempre foi o meu mundo!
Que me desculpem os "acordantes"!!!

3 de Março de 2012 20:45  
Blogger Justine disse...

De acordo contigo, Jorge, e não com o Acordo Ortográfico, que está cheio de erros científicos, que partiu de permissas erradas, e que quer sujeitar a língua à regras políticas vigentes! Tanta asneira!

5 de Março de 2012 17:55  
Blogger elvira carvalho disse...

Não tenho grande cultura, nunca estudei, apenas fiz a quarta classe há mais de 50 anos. Sempre gostei de escrever e o meu maior orgulho era nã dar erros. Agora ando muito baralhada. E quanto mais vejo aquela rubrica da RTP1 "Assim se fala em bom português" mais baralhada fico.
Um abraço

6 de Março de 2012 10:37  

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